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id da página: 2999 Páscoa – Ritos

Pascoa Ritos

Páscoa — Os ritos

VIDE: Liturgia; Rito

DESTAQUES


  • O pensamento cristão e a perspectiva de Agostinho consideram a celebração da Páscoa como algo superior a uma mera festa de aniversário ou comemoração anual, concentrando-se no mistério, o sacramentum, que é a Páscoa como o sacramento da passagem.
    • As fases subsequentes dessa passagem abrangem a Páscoa de Cristo, o Nascimento Novo, o regresso dos Penitentes e a transição dos fiéis.
    • O resultado final desta passagem é a manifestação de Cristo-Luz.
  • O sacramento da passagem, conforme a exortação de Agostinho, "Securi agamus Pascha" (S 216, 6), ou seja, "Celebremos a Páscoa seguros", implica primeiramente a comemoração da morte e ressurreição de Cristo, constituindo a sollemnitas.
    • O objetivo da sollemnitas é revigorar a lembrança do evento histórico com maior contentamento, pois "Edifiquemo-nos acreditando que Cristo Senhor ressuscitou. Já sem dúvida o acreditávamos quando ouvimos ler o Evangelho, já sem dúvida o acreditávamos quando hoje entramos nesta reunião; e não obstante, não sei como é, ouvimo-lo com alegria porque assim o sentimos mais vivo na memória" (S 234, 2).
    • Busca-se que "memoria nostra laetius innovetur" (renove-se mais alegre a nossa memória) e, de modo mais crucial, que "fides nostra clarius illustretur" (ilumine-se de mais claridade a nossa fé; S 218, 1), visto que a essência da fé reside na crença em Cristo ressuscitado.
    • O pastor, aproveitando a sollemnitas e a celebratio, deve assegurar a genuinidade dessa fé: "Ninguém creia de Cristo senão o que Cristo quis se creia d'Ele" (S 237, 4).
    • As narrativas da ressurreição servem de base para Agostinho refutar as heresias trinitárias e cristológicas, demonstrando que Cristo indicou o que era benéfico crer e o que era prejudicial não crer: "Que é que nisto me quis Cristo mostrar senão que sabia o que para mim era bom eu cresse e o que era nocivo que eu não cresse?" (S 238, 2).
    • Assim, prega a fé em Cristo verbum et caro (verbo e carne) contra os maniqueus e priscilianistas; a fé em Cristo aequalis Patri (igual ao Pai) contra os sabelianos, arianos e discípulos de Fotino; a fé em Cristo deus et homo (deus e homem) contra os apolinaristas; a fé em Cristo corpus et caput (corpo e cabeça) contra os donatistas; e, finalmente, a fé em Cristo médico contra os pelagianos, o que significa que a festa pascal intensifica a alegria do cristão e esclarece sua fé.
  • "Celebrar a Páscoa" engloba mais do que a sollemnitas, sendo também um sacramentum, que, ao contrário da sollemnitas que foca nos fatos objetivos e ensinamentos, insere os fiéis em uma realidade invisível que os afeta diretamente.
    • A sollemnitas refere-se ao fato de que Cristo ressuscitado não morre mais e a morte não tem poder sobre Ele, enquanto o sacramentum é que Cristo foi entregue pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação, segundo a explicação na carta a Januária (Epist. 55, 1-2).
    • O sermão 272 define o sacramentum: "Isto chama-se sacramentum, porque nele uma coisa é o que se vê e outra o que se entende. O que se vê tem aparência material o que se entende tem fruto espiritual."
    • De acordo com a carta a Januário, a celebração litúrgica é um sacramentum quando a recordação dos eventos históricos é percebida como significante de um dom sagrado concedido ao povo fiel por seu intermédio.
    • "Celebrar a Páscoa" implica receber este dom invisível, o fructus spiritalis (fruto espiritual), este aliquid quod saneie accipiendum est (algo que se deve receber com santidade).
    • O "sacramento da sua Paixão e da sua Ressurreição" (S 231, 7) é o sacramentum primordial, pois o evento visível, o significante, é a morte e a ressurreição históricas, e o evento invisível e real, o significado, é a passagem da morte para a vida.
    • A Páscoa é o sacramento da passagem, indicado pela palavra pascha em hebraico, que significa transitus.
    • Agostinho adverte contra a etimologia que deriva pascha do verbo grego paschein (sofrer) e cita habitualmente três passagens: João 13, 1 "ut transirei de mundo ad Pairem" (para passar deste mundo ao Pai); João 5, 24 "Qui credit in me transit de morte ad vitam" (quem crê em mim passa da morte à vida); e Romanos 4, 25 "traditus est propter delicia nostra, resurrexit proter justificationem nostram" (foi entregue por causa dos nossos delitos, ressuscitou por causa da nossa justificação), esta última enfatizando o valor sacramental da passagem.
    • "Através da paixão, o Senhor passou da morte à vida e abriu-nos caminho para nós, para nós que cremos na sua ressurreição, para que também nós passemos da morte à vida ... Crer que Ele morreu, não vale nada; também o creem os pagãos, judeus e ímpios. A fé dos cristãos é fé na ressurreição. Isto é o que monta. Quis que conhecêssemos a sua ressurreição, isto é, a sua passagem. Quis que crêssemos n'Ele no momento da sua passagem" (En. in Ps. 120, 6).
  • A Páscoa de Cristo concretizou-se no tempo, com Cristo vindo à humanidade e ascendendo ao Pai em uma "missão comercial" de permuta.
    • O simbolismo da troca de bens e mercadorias é proeminente na pregação de Agostinho, em um desenvolvimento maior, nos sermões estudados, do que as imagens de salvador ou redentor.
    • Ao lado das representações tradicionais de Christus salvator (Cristo salvador), que liberta, e Christus redemptor (Cristo redentor), que quita dívidas, e sobrepostas às de Christus medicus (Cristo médico), que cura, destacam-se os traços de Christus mercator (Cristo mercador), que veio para adquirir a morte, dando a vida como pagamento.
    • Essa missão exigiu uma jornada e a travessia de uma fronteira: "Vindo da sua pátria ..." (S 233, 4); "Nosso Senhor veio, pois, de outro país para esta terra ... para a região da morte, veio da região da vida; para a região do sofrimento, veio do país da felicidade" (S Guelf. 9, 1).
    • O Mercator iste (este mercador) (S 233, 4) é o homem de negócios, cujas transações o levam a terras distantes, como as regiões bárbaras, análogo ao que se encontra em Hipona, um porto na Numídia, fronteira do mundo romano.
    • Na região de morte e sofrimento, o mercador "encontrou na nossa região o que nela abunda. Que abunda aqui? Nascimento e morte. Nascer e morrer são as mercadorias que enchem a terra" (S Guelf. 9, 1; S 231, 5).
    • O mercador estabeleceu laços de hospitalidade, "Comeu contigo o que abunda na pobre casa da tua miséria. Bebeu cá vinho azedo, bebeu cá fel, o que encontrou na tua pobre casa; mas em compensação convidou-te à sua lauta mesa do céu" (S 231, 5).
    • O pagamento ocorreu por meio de permuta: a mercancia totalmente exótica para Ele, a morte, é trocada pelo que é essencial à nossa região, a vida.
    • "Porque para Ele, que é o Verbo, donde é que lhe viria a morte? E a nós, homens da terra, mortais, corruptíveis, donde é que nos viria a vida? Ele não tinha nada donde pudesse tomar a morte, nós não tínhamos nada donde pudéssemos tomar a vida; do nosso haver recebeu a morte, para, do seu, nos dar a vida" (S 232, 5).
    • "O nosso mercador ao vir da sua pátria trouxe para cá um valor de importância" (S 233, 4), sendo a novidade a ressurreição e a vida eterna: "Porque ressuscitar e viver para sempre, quem conhecia tal coisa? Esta é a novidade que Ele trouxe à nossa terra" (S Guelf. 12, 1).
    • "Veio, trazendo-nos consigo os seus bens, e trazia-os sem se saber" (S Guelf. 9, 1), concretizando um "extraordinário comércio: nós tínhamos aquilo por que Ele morreu, Ele tinha aquilo por que nós vivemos" (S Guelf. 3, 1).
    • O sermão 5 Denis 5 expressa de maneira mais simples a troca: "Façamos uma troca: eu dou-te a ti, tu dás-me a mim. Eu tomo de ti a morte, tu toma de mim a vida."
    • Agostinho, citando 2 Coríntios 8, 9, salienta que as transações não enriqueceram o autor: "Diz-te Deus: Por causa de ti fiz o meu Filho pobre. Realmente, por causa de nós é que Cristo, de rico que era, se fez pobre" (S 239, 6).
    • Há uma "Magna mutatio! Ille factus caro, isti spiritus" (Grande mudança! Ele feito carne, estes feitos espírito; S 121, 5).
    • O mercador precisou deixar uma garantia para que se acreditasse no negócio: "Não quereis acreditar que vos darei a minha vida? Tomai por fiança a minha morte" (S 231, 5).
    • Agostinho questiona: "Como é que pode recusar-nos a sua vida, se nos pagou antecipadamente a sua morte?" (S 233, 4).
    • Às vezes, Cristo é apresentado comprando os próprios fiéis: "Quando jacuit tunc nos emit" (Quando morreu então nos comprou; S Guelf. 1, 5).
    • "No momento da venda não escondeu o que comprou. Fez a escritura. Graças a Deus não nos enganou" (In Io. Eu. 13, 4).
    • O tema da permuta difere do de redemptor (redentor), que resgata da escravidão por dívidas e destrói o chirographum (cédula), sendo essa a jornada do mercador-viajante, o estrangeiro que passa, peregrinus in mundo (peregrino no mundo; S 239, 2).
  • A passagem de Cristo também se fundamenta na necessidade dos homens doentes, resultando na visita do médico após as andanças do mercador: "Venit medicus tunc ... Medicus Christus" (veio então o médico ... O médico é Cristo).
    • Este simbolismo encontra base nos textos da Escritura, como Marcos 2, 17 e 5, 31-32, embora Agostinho os cite explicitamente apenas no S Bibl. Casin. II, 114, que serve de fundamento para a pregação na Quaresma, quando os catecúmenos são encorajados ao batismo.
    • A mensagem é que "Cristo ama os pecadores, como o médico ama o doente, para lhe matar a febre e o salvar. Não quer que o doente esteja sempre enfermo para ter de sempre o visitar, mas quer curá-lo ..."
    • Agostinho conclui: "Portanto, o melhor dos médicos, para quem nenhuma doença é incurável, começou a tratar-te. Não tenhas medo dos crimes passados que porventura tenhas cometido, por monstruosos, por incríveis que sejam; são grandes as tuas doenças, mas é maior o teu médico" (S Bibl. Casin. II, 114, 1, 2).
    • O médico é optimus medicus, medicus artifex (médico ótimo, médico artista; S Guelf. 17), mas também medicus humilis (médico humilde; S Mai 22), indicando a cura da presunção e o papel na polêmica antipelagiana, onde Pedro necessita de um diagnóstico que revele sua fraqueza e um tratamento que lhe dê novas forças.
    • No contexto da pregação pascal, o tema do médico é secundário, mas ganha uma coloração patética, pois, sendo o mesmo que o mercador, Ele vem curar as feridas com o toque de suas cicatrizes.
    • Agostinho explica: "Cristo podia ter curado as chagas do seu corpo de modo que nem rastos se vissem das cicatrizes, mas quis guardar as cicatrizes na sua carne para arrancar do coração dos homens a chaga da incredulidade, curar as chagas verdadeiras pelo sinal das suas próprias chagas" (S Mai 95, 2).
    • Ele continua: "O médico não os deixou partir assim, aproximou-se, deu-lhes um remédio, via as chagas que tinham no coração e, para lhes curar a chaga do coração, levava em seu corpo as cicatrizes" (S 237, 3).
    • Essa linha de pensamento pode ter origem em 1 Pedro 2, 24, que cita Isaías 53, 5: "cujus livore sanati estis" (com cujo livor fostes sarados), embora Agostinho não o cite diretamente.
    • A passagem de Cristo entre os homens é contínua para curar e salvar, e sua páscoa histórica, em que está na terra e no céu, junto aos homens e junto do Pai, esclarece sua função de mediator (mediador).
    • "Fez-se filho do homem sem deixar de ser filho de Deus. Para isto é medianeiro no meio. Que quer dizer: no meio? Nem em cima nem em baixo. Como nem em cima nem em baixo? Nem em cima porque é carne, nem em baixo porque não é pecador. Contudo, enquanto Deus, sempre em cima; porque não veio a nós de tal maneira que deixasse o Pai. Partiu do meio de nós e não nos deixou, há de vir a nós sem O deixar" (S 121, 5).
    • Cristo veio para oferecer aos homens a salvação, representada pela palavra latina salus, que primeiramente significa saúde e o que a garante, tendo Deus como sua fonte.
    • A páscoa de Cristo visa transformar uma saúde passageira, uma vida efêmera compartilhada com os animais (comentário ao Salmo 35, 10 no S 233), em uma saúde que não passa (quae non transit).
    • O S 116, 1 afirma: "A nossa saúde é Cristo"; e o S 233, 4 conclui: "Ipsa salus hic venit..." (Veio aqui a Saúde em pessoa ...).
    • Durante as solenidades da Páscoa e a iniciação batismal, retoma-se o simbolismo do versículo 10 do Salmo 35 e das Escrituras: "Christus est fons vitae" (Cristo é fonte de vida; S 232, 2) e "Venit ipse fons vitae" (veio a própria fonte da vida; S Wilm. 11), sendo uma imagem muito apreciada por Agostinho.
  • Essa é a Páscoa de Cristo.